Na cidade havia um cinema. Cinema poeira, como a cidade. Pequeno, idem. Durante muitos anos era a diversão da população que não tinha dinheiro para comprar televisão. Quer dizer, era o gatilho da diversão de uma parte da cidade, a que conseguia pagar ingressos. Não que fossem caros, normalmente as crianças conseguiam comprar suas entradas engraxando dois ou três pares de sapatos na pracinha da cidade. Aliás, o cinema ficava na mesma pracinha que a igreja, a prefeitura, a câmara de vereadores e o comércio — pequeno, ínfimo — local. Era cidade de seriado e novela da TV Globo. Acho que você já tem a imagem dela na sua cabeça, né?

Prossigamos.

Um dia, o dono do cinema decidiu se aposentar. Estava cansado, já na avançada idade de cinquenta e cinco anos, e resolveu gozar do seu INPS e da pequena reserva que fizera nesses anos todos como administrador do cinema. Nunca quis expandir o negócio, sempre se fiou nos ingressos e no trabalho semi-escravo das pessoas que passaram por sua empresa. (Dizem que o menino que cuidava da faxina por um tempo tentou um processo quando foi demitido, mas desapareceu antes da primeira audiência. O Fórum não ficava na praça; a casa do juiz, sim. Nunca encontraram o garoto.) O custo de vida na cidade era bem baixo e ele viveria os dez anos de vida que lhe restariam — segundo a expectativa do IBGE à época — com calma, conforto e segurança.

Só que não.

Era a época das trocas de moedas aceleradas, o valor do dinheiro era corroído anualmente, depois mensalmente e, finalmente, diariamente. O dono do cinema viu suas economias irem embora num piscar de olhos. O plano de previdência militar no qual depositara seu dinheirinho também foi destruído pela inflação e a tal correção monetária não valia para contratos antigos. (História real e verídica. Trabalhei numa empresa que geria esses tipos de pagamento de previdência. Era desesperador.)

Pressionado — e tendo sobrevivido mais anos do que esperava, como Jorginho Guinle — pelas dívidas, resolveu vender o cinema. Ainda o mantinha funcionando porque gostava de se ocupar com as fitas que chegavam da capital irregularmente. Também tinha uma coleção pequena, “apimentada”, que assistia em segredo, nas noites de terça-feira. Era o seu “Sala Especial” privado. Danado…

Só que o tempo passa.

As televisões ficaram mais baratas e toda casa passou a ter uma. Os cinemas pequenos do interior tiveram outros destinos e ter uma igreja não era visto como negócio lucrativo, apenas era exercício de fé — ainda não existia a IURD como monstro devorador de todo imóvel disponível nessas cidades. O cinema passou a não ter mais função na pequena cidade.

Mesmo com a aposentadoria do seu Zé (sim, vou chamar de seu Zé para ficar mais simples e conseguirmos fazer um elo mais personalizado do dono tarado e explorador do cinema) que fez diminuir o movimento da população no centro da cidade em “dias de sessão” — vinha muita gente da zona rural, em roupas de domingo, para ver as fitas — a manutenção bissexta do cinema estimulava negócios aqui e acolá. Havia o pipoqueiro, o baleiro, o vendedor de cigarros e, no entorno, uma lanchonete tinha seu pico de movimento sempre depois da missa (domingo) e da sessão. (Sexta, sábado, terça. Ou você acha que a sessão “proibida” era só pro seu Zé?)

Então. Seu Zé estava quebrando, tinha só um bem e não sabia o que fazer. Toda a vida dele rodou em torno daquele negócio e ele não sabia fazer outra coisa. Até que o juiz veio com uma ideia sensacional.

— Por que o senhor não contrata um executivo na capital? Um capitalista! Aí ele saberá cuidar do seu negócio.

O juiz estava sugerindo uma consultoria, na verdade, mas ele não conhecia esses termos. Só usava os que aprendera nas fitas do Frank Capra e “capitalista” era o nome das pessoas que entravam nos negócios — ou comprando, ou contratados — para revitalizá-los e, depois, vendê-los. O prefeito e seu vice (que revezavam na prefeitura regularmente, mandato a mandato) disseram que até entrariam em sociedade com seu Zé. Quer dizer: a prefeitura entraria, já que era de interesse cultural e social e coletivo a revitalização do centro social e cultural cinefilista da cidade.

Seu Zé achou uma boa ideia. Topou o empréstimo que a prefeitura faria para contratar o “capitalista” e pediu para seu sobrinho ir até à capital encontrar um que topasse a empreitada. O empréstimo foi aprovado por aclamação pelos vereadores (cinco, todos primos ou cunhados, ou co-cunhados do prefeito e seu vice) e assim se deu.

Ou quase.

Veio o consultor que fez a consulta e fez o diagnóstico:

— O senhor precisa de um executivo de marketing para desenhar um plano de negócios para sua empresa e projetar um crescimento saudável que garanta o aumento de valor intrínseco do seus assets. Digo mais: o senhor precisa de um CEO para sua empresa, enquanto fica apenas no conselho empresarial.

Na real, a grana da consultoria foi uma merreca, o sobrinho descolou um recém-formado em administração no puteiro onde passou a semana toda gastando a grana do empréstimo, por conta. O cara topou fazer a viagem, a consultoria e entregou o bullshit sem menor dor na consciência. Dizem que hoje é presidente de uma telecom aí. Dizem.

Seu Zé ficou desesperado. Não sabia onde encontrar um tal CEO, não sabia quanto deveria pagar, não tinha a mínima ideia por onde começar. O banco já não tinha mais crédito para ele.

O juiz veio com outra ideia:

— O consultor mandou contratar um CEO — ele torcia a boca e fazia bico quando falava sí-í-ou para parecer legítimo — então ele deve ter um para recomendar.

E tinha.

O consultor tinha um amigo que tava com o filme queimado na capital. Tinha se metido com “negócios de fronteira” e precisava dar uma desaparecida por um tempo. Não seria caro para seu Zé contratar o “amigo”. Se bobear, o cara iria até “no risco”, ficando com parte do lucro ao invés de um salário.

E foi.

Chegou lá, alugou uma casinha, descolou uma namorada (oficial, logo arrumou outras na zona) e começou a trabalhar. Nesta ordem. Em pouco tempo já tinha um plano de negócios, um modelo de receita e de expansão e um planejamento estratégico para 36 meses. Tudo lindo, “amostrado” para seu Zé, pro prefeito e seu vice e pro juiz. Sempre o juiz.

Mostrou, vendeu e tocou o barco. Em doze meses quebrou a bagaça. Simplesmente esqueceu que: a) o cinema era pequeno, não cabiam cinco mil pessoas em cada sessão; b) a cidade (e seu entorno) não tinham mais de cinco mil pessoas; c) a passagem era mais cara que o ingresso, para quem vinha da zona rural ou de outras cidades. Mas isso não o impediu de colocar ar-condicionado (foi o primeiro prédio da cidade a ter ar central), reformar poltronas, tela e projetor e trocar todos os vitrais de cartazes. AH! ao invés de alugar as fitas das distribuidoras e pegar os filmes “na milha final”, resolveu fechar negócio direto com a capital, para receber o que saía com as maiores redes. Parecia a Manchete quando inaugurou! Que coisa linda!

E a conta não fechava. Piorava.

No segundo ano a situação estava insustentável. No início — ou melhor, depois da reforma que durou cinco meses — as sessões enchiam bem. Afinal eram filmes novos, poltronas confortáveis (e não aquelas duras, de madeira, antigas) e ar-condicionado. Era normal que as pessoas fossem ver a novidade. De fato, gente de outras cidades chegaram a vir em comboio para ver aquele filme com aquele ator famoso e aquele outro que fazia o vilão (lembra?). Mas novidade dura pouco. E novidade que dá trabalho e é cara para chegar e sair desestimula mais ainda. Sete meses de queda contínua em faturamento e resultado.

Para ser justo, muita gente ia ao cinema. Mais que no tempo da aposentadoria do seu Zé. Afinal, nos dias quentes é bom ficar num ar-condicionado. E era confortável tirar uma soneca naquele escurinho. Se ele tivesse transformado o cinema um cochilódromo, talvez tivesse feito mais sucesso.

Mas não era gente suficiente. O danado do sí-í-ou tinha errado todas as contas. Tipo todas mesmo. De novo, pelo preço que “pagaram” no diacho e dada a fama dele, o estrago até que foi pequeno. Mas tinha se passado um ano e meio. O cinema tinha melhorado de faturamento médio, mas nunca iria pagar o investimento e — principalmente — o empréstimo.

O prefeito e o vice (acho que já tinham trocado de posição nessa altura do campeonato) tinham pedido para a câmara aprovar um perdão da dívida. Afinal, o cinema continuava a recolher impostos e eles queriam ainda a sessão especial das terças-feiras (agora, com discretas convidadas da zona, trazidas pelo sí-í-ou). O perdão passou sem problemas. Mas o banco não topou.

Quando estava para ser emitida a ordem de despejo (ou seja lá como se chama isso!) para que o banco tomasse o cinema, o juiz teve a terceira e “brilhante” ideia.

— Vamos vender o imóvel e fechar a empresa. Assim a dívida morre com ela e seu Zé fica com algum no bolso.

Além de ficar claro que o juiz não entendia absolutamente de como se davam os processos de cobrança de dívidas de pessoas jurídicas (e nem como se davam os processos trabalhistas; e tampouco lera a constituição — segundo diziam), ele estava propondo a morte da cidade. Metaforicamente falando, claro.

Venderam o cinema. Virou uma loja de departamentos mequetrefe mas rendeu um dinheiro para seu Zé. (Que morreu alguns meses depois, de uma infecção urinária não relacionada com a atividade sexual libidinosa ou com o consumo de material entorpecente vindo “da fronteira”.)

A praça perdeu o pipoqueiro, que se mudou para frente da escola municipal e ficou lá até ser preso por abusar de uma menor de idade.

A praça perdeu o baleiro, que se mudou para a zona rural e voltou a trabalhar no lote da família. Morreu de fome quando uma seca braba matou toda a plantação e o gado que tinha.

A praça perdeu o vendedor de cigarros, no que fez bem.

E a lanchonete perdeu metade do seu movimento. Ela cresceu com a subida do movimento do cinema, mas não se segurou nem na subida (faltava gente para atender os peões, as pessoas que vinham de fora, os próprios moradores da cidade) e ficou com fama de mal atendimento e nem se segurou na queda, quando teve que demitir quase todo mundo. Depois de dois anos, fechou e virou uma igreja.

O pastor da igreja era o vendedor de cigarros.

Passaram-se os anos e o narrador passeou no centro dessa cidade. Conversou com quem ainda morava lá. Perguntou pelas construções, pela história dos prédios e do porquê do cinema não existir mais. Ele tinha boas lembranças da infância, quando seu pai o levou para ver um filme bobo, do Fred Astaire. Filme velho, na “última milha” da exibição da fita.

Quando se fecha um negócio, especialmente os que envolvem a circulação de pessoas, mata-se uma vida (econômica, social, cultural) de uma cidade. E fecha-se negócios por diversos motivos. A maior parte por incompetência de uma ou todas as partes. Talvez a prefeitura devesse ter mantido o cinema, ainda que com prejuízo, ainda que só para “pagar salário” às custas do contribuinte. Talvez não. Talvez o sí-í-ou devesse ter feito contas direito (ou ter praticado menos o caratê boliviano na zona da cidade). Talvez.

O fato é que o prédio está lá. Fechado. Vazio. Nem a loja de departamentos se segurou de pé. Ninguém circula mais na praça.